30.9.18

mãe

29 semanas de gestação. Inicia-se a segunda semana do terceiro trimestre e também a contagem regressiva. Em pouco mais de 2 meses, teremos aqui um novo habitante da casa e do mundo, um novo humaninho cheio de desejos, sonhos e aspirações. Por enquanto, estamos completamente ligados eu e ele, somos um e dois ao mesmo tempo. O que eu como, ele come, logo que falo as primeiras palavras quando acordo, ele me dá chutinhos ou soquinhos e sinaliza que também acordou. Ele respira dentro e por meio de mim; meus movimentos se tornam um pouco mais lentos que de costume porque meu corpo trabalha também por ele e para ele. Ele cresce e minhas costas doem. Sou uma canguru que carrega esse meu filhote num corpo totalmente adaptado para esta fase. Meus quadris se alargam, meus peitos aumentam e meus hormônios passam por uma grande revolução, tudo isso para abrigar e receber esse filhote que chega em breve - e que, neste instante, me dá chutinhos nas costelas.

Resolvo abrir um álbum velho de fotografias, um álbum rosa com uma elefanta também rosa que segura um ramo de flores e tem um olhar melancólico. O álbum foi organizado por mim quando tinha uns sete anos. Minha mãe tivera a ideia de finalmente juntar fotos minhas e do meu irmão que andavam espalhadas pela casa. A ideia era organizá-las para registrar uma narrativa dos nossos nascimentos, que até então só existiam nos relatos fragmentados dos nossos pais, das avós e de algumas tias. "Você nasceu careca e começou a ter cabelo só depois de dois anos de idade", dizia uma. "Seu irmão nasceu muito cabeludo, um cabelo pretão, parecia o do seu avô (materno)", dizia outra. "Mas depois caiu tudo". Ah, menos mal. O "mas depois caiu tudo" que sempre vinha em seguida aplacava um pouco uma certa inveja que eu sentia.

Mas de volta ao álbum. Na época do ajuntamento das fotos, me lembro que fiz o meu e do meu irmão porque ele era muito pequeno para organizar as dele, devia ter uns quatro anos e pouco. Colei figurinhas felpudas de bichinhos, desenhei arco-íris, colei nossos cartõezinhos de registro de nascimento em cada um. Descobri que nasci pesando 3,630kg às 9h15 da manhã de cesariana porque, apesar de tanto eu quanto minha mãe estarmos perfeitamente saudáveis, eu estava "demorando muito" e "não queria sair da barriga". Histórias de uma década que ainda se perpetuam, só que um pouco menos agora. Aos poucos, bem aos poucos, voltamos a valorizar nascer do jeito bicho.

De tempos em tempos, abria o meu álbum. Meu foco estava sempre direcionado a como eu era quando bebê e nos meus primeiros dois anos. Minha mãe era uma coadjuvante. Ela era o lugar de onde eu saí. Nunca havia reparado na intensidade e na delicadeza dos gestos dela enquanto me segurava ou me amamentava nas fotos. Era como se ela fosse para mim, simplesmente, como eram todas as mães. Ou talvez como deveriam ser. Um comportamento condicionado, normalizado. É assim e pronto. Isso é ser mãe. Mas acontece que minha mãe não foi sempre mãe. Ela se tornou mãe. Mas eu só consegui entender isso quase três décadas depois, somadas a meses de gestação vividos no meu próprio corpo. Só assim começo a entender o que ela deve ter sentido, as transformações físicas, os conflitos internos, a variação de humor, a sensação de falta de controle sobre si e sobre o ser que se forma em você, as confusões mentais causadas por bombas hormonais, especialmente nas primeiras semanas, os medos, as alegrias, a constatação de que o tempo agora passa de um jeito diferente, as restrições e os cuidados alimentares. A dubiedade de tudo isso que vem junto com uma chuva de afeto e a descoberta de si.

Olho para as fotos de novo e tenho um mar de lágrimas nos olhos. Me toca o amor que vejo naquelas fotos - ela só tem olhos para mim e parece se sentir a pessoa mais realizada do mundo. Ela não posa para o fotógrafo. Na verdade, não parece nem reparar que meu pai aponta uma câmera para ela. Está absorta no momento, naquele bebê que franze a testa, faz careta, dá risadinhas e gosta de tomar sol. E que também gosta tanto daquele peito. Reparo pelas fotos que ficamos separadas por longas temporadas no hospital, logo que nasci. Percebo o alento nos seus olhos que vem com a chegada do seu pacotinho. Ela me beija com delicadeza, me dá boas-vindas pela minha chegada e me aninha em seus braços, num corpo que se recupera de uma cesariana.

Penso então na cumplicidade da gestação e na separação do nascimento. As despedidas devem ser tantas e os lutos tão intensos, só que provavelmente deixados de lado para se cuidar de um ser vulnerável e dependente.

Fomos tão visceralmente próximas e nos distanciamos tanto. Levei tantos anos para me tornar próxima a ela de novo. Tive que me despir de tantas camadas minhas para ser capaz de receber os seus afagos de novo. E agora, mais do que nunca, enquanto me despeço da minha vida pré-maternidade, me vem uma chuva de amor e gratidão pela minha mãe. Vejo que seu olhar nas fotos enquanto me segurava e me amamentava não é simplesmente normal, mas é repleto de entrega. Não é  simplesmente a condição maternal: é uma transformação e uma escolha.

2.12.17

Zeca

Me lembrei do Zeca. Me lembrei hoje quando resolvi desenhar e pintar com um lápis-giz-de-cera. Sempre nessas ocasiões me lembro dele, uma pessoa de quem nunca me lembro hora nenhuma. Sempre reflito sobre fazer coisas que não envolvam ler ou escrever - porque ler, apesar de ser um deleite, é também sempre um modo de estar trabalhando, mesmo sem querer. Um dia desses então resolvi comprar um caderno de desenho. Há tempos não usava um lápis macio para desenhar, esfumaçar, um lápis para colorir. Encostar o lápis no papel sem um projeto em mente, sem objetivos, sem metodologia, sem bibliografia, sem análise, sem teoria, sem introdução, sem problema. Sem problema, sem pesquisa, sem nada. Só um lápis rabiscando um papel. Às vezes, no redemoinho dos objetivos e das introduções, lembro do caderno e de todas as suas folhas em branco. E dos vários lápis que carrego no meu estojo, cheio de canetas que uso para corrigir, apontar erros, sugerir aprimoramentos, assinar, atestar, declarar, certificar, aprovar, reprovar, dar notas. Mas os lápis me lembram do caderno, que me lembra de desenhar, que me lembra do Zeca.

O Zeca era, ou é, um homem de história tortuosa. Ele namorava minha tia mais nova, irmã da minha mãe. Minha tia mais nova era, ainda é, louca, impetuosa, aventureira. Para muitos, é irresponsável, desequilibrada, desmiolada, extravagante. Para mim, quando criança, era divertida, franca e espontânea. Nunca parava em emprego nenhum. Tinha uma filha, que nunca viu o pai. E tanto fazia, ao menos para minha tia, não para minha prima. Minha mãe, tentando firmar minha tia na vida, sempre procurava emprego para ela, oferecia de trabalhar um tempo lá em casa, fazendo faxina duas vezes na semana. Quando minha tia vinha, ela corrompia tudo. Trazia e falava de filmes de terror, os mais satânicos possíveis, em fitas de VHS. Eu e meu irmão ficávamos apavorados, mas completamente enfeitiçados. Minha mãe nunca sonhou com isso, pelo menos não enquanto éramos crianças. Isso foi segredo trancado a sete chaves por quase vinte anos.

Minha tia, que me oferecia cerveja quando eu tinha sete anos (prova, menina, vai. Argh, coisa amarga), um dia juntou com Zeca. O Zeca é uma pessoa tão improvável e tão memorável ao mesmo tempo. Ele surge num intervalo, num milésimo de segundo, entre a lembrança do caderno e o primeiro rabisco. Zeca virou pai para minha prima, não sei até que ponto. Mas parecia meio pai às vezes. Do ajuntamento de minha tia e ele, veio mais uma prima, que no começo foi bem filha para ele. Mas minha tia e Zeca tinham um relacionamento muito cheio de ventania. Eles moraram por anos num puxadinho, aos fundos da casinha da minha avó, na Ceilândia, Distrito Federal. Um dia fui dormir lá, devia ter uns 7, 8 anos, e acordei de madrugada com o clarão de um fogaréu e calorão vindo dos fundos da casa. Minha tia e Zeca tinham brigado, sei lá porquê, poderia ter sido por conta da cerveja que tinha acabado ou de quem tinha comido o último torresmo, ou por ciúmes ou qualquer outra coisa. Podia ser coisa pequena feito torresmo ou grande feito ciúme, tanto fazia. A briga seria e tinha sido do tamanho dos rompantes da minha tia. Rompante de alegra, de tristeza, que por vezes a fazia sumir e andar por dias a fio, de qualquer coisa. Mas nunca de raiva. Mas naquela noite, ela resolveu mandá-lo para fora de casa e tocar fogo no colchão onde dormiam. Só agora entendo o quão apegada a símbolos minha tia podia ser - talvez fosse aquela a sua maneira de fazer poesia? Transformando metonínias em literalidade? O colchão ardia em chamas, mas logo viraria um pó cinza, fedido, fumacento, que sujaria o minúsculo pátio entre a casa da minha vó e a edícula. Minúsculo. Era a única parte do terreno descoberta e lá só cabia um tanque. Não sei se foi nessa madrugada que Zeca foi embora e não voltou mais. Eles foram e voltaram tantas e tantas vezes. Mas, na minha memória, foi assim. Então... o colchão, que tanto ardia em chamas, virou pó e Zeca se foi para nunca mais voltar.

Mas Zeca me ensinou a desenhar. Me lembro de Zeca com uma folha de papel em branco sobre a mesa me explicando sobre como desenhar uma árvore, cheia de galhos e folhas. A árvore que eu sabia fazer era um tronco com um grande algodão doce em cima. A árvore do Zeca era frondosa, dava até para dar impressão de que o vento estivesse soprando nela, balançando cada uma daquelas folhas. Zeca também me ensinou a pintar sem deixar vazar as bordas. Tinha que pintar as margens primeiro e depois pintar dentro das margens, melhor que fosse na mesma direção sempre porque senão ficava marcado na folha, dava para ver na textura do desenho e aí podia estragar tudo. Ali no desenho tinha sempre algo muito harmônico e ordeiro, como em nada mais no Zeca, nem na minha tia. Mas, por causa do desenho, tudo no Zeca para mim era calmo e cuidadoso. Eu não entendia o colchão em chamas, nem as muitas idas e vindas do Zeca. A felicidade e a amargura da minha tia e do Zeca, a crença do certo, a realidade do instável, do caos e do nada.

Anos se passaram e eu nunca mais vi o Zeca. Talvez tenha sido desde o episódio do fogaréu, talvez depois. Não sei para onde Zeca foi. Sei que nunca mais viu sua filha, nem minha outra prima, sua enteada. Não viu o neto que nasceu quando minha prima mais nova mal completou 15 anos e foi morar com seu namorado, que era carroceiro e que mais tarde foi preso por tráfico. Zeca sumiu. Zeca era um homem bruto, mal escrevia o próprio nome. Tinha mãos cheias de calos de ter trabalhado em roça e em obra a vida inteira. E Zeca se preocupava com os contornos do desenho e com o vento que batia nas folhas da árvore. Onde estaria Zeca agora? Teria partido para se tornar um grande desenhista? Zeca, o grande desenhista de árvores. Zeca, cuja obra de destaca pela minúcia dos contornos.



15.11.17

Altruísmo

São cinco da manhã, toca o despertador. Hora de levantar, tomar as rédeas do seu corpo que vacila, fazer-se sociável de novo. Lava o rosto, confere a carteira para ver se os documentos estão lá, segue a vistoria mental de quem não tem mais tempo para conferir as coisas no lugar de onde acaba de sair, apalpa os bolsos das calças e da bolsa. Tudo o que está ao seu alcance aí está.

Ao chegar no aeorporto, segue para a rotina de sempre, precedida, porém, pelo necessário líquido vital, que a fará mover-se com mais destreza. Sorve contente o quentinho fumegante daquele café, que termina tão rápida e subitamente. É possível caminhar de novo, sobre suas duas pernas, com seu rosto que pode ser visto. A noite breve, de poucas horas dormidas, se insinua. É preciso escorar-se, onde for. Para quê toda essa dignidade, para quê todo esse rostinho a ser visto, se o que sente é a vontade de desalinhar-se para aninhar-se no frio do chão de aeroporto. O que deseja é desmanchar-se no chão, no aconchego do piso que a segura, segura agora suas duas pernas, que, por sua vez, tentam segurá-la, de seu peso que tanto pesa agora. O peso da breve noite de horas pouco dormidas, a noite breve de peso, de poucas dormidas horas. O breve peso da noite das dormidas e poucas horas.

Mas repousa somente o desejo, pois todas as cadeiras, todas as paredes, todos os encostos da sala de embarque estão ocupados. Li uma vez um verso de poema que dizia: "All the good seats are taken", mas onde foi, onde...

"Última chamada para embarque no voo XX7865... Gestantes e crianças... Blah... Blah..."

***
No avião, consegue finalmente o assento tão almejado, apesar de apertado, lá está. Sua poltrona ereta e dura é um abraço carinhoso.

Ppppppppp. Tctctctctctc. Mãe, mãe, manhê... Pppppppppp. Tctctctctctc. Não, esse não, mãe, manhêeeee... PppPPPPPPPPPPPPPP!!!!! TctctctcTCTCTCTCTCT!!! MANHÊeee

O momento de mostrar seu rosto que pode mostrar (ou não) vem à prova, mostrar ou não mostrar. Ensaia: "A senhora poderia pedir, por gentileza, por favor, com toda a sua bondade, para seu filho parar de chutar a minha poltrona? É de manhã cedo, todos madrugamos, preciso dormir, nem que sejam 20 minutos, tenho um dia longo pela frente."

Não. Negociar não precisa, pois tão perto de si repara que tem uma carta valiosa na manga, afinal o valor das coisas se mede pelo seu contexto: está num dos assentos mais preciosos e cobiçados de uma aeronave, apesar de preferir o corredor, pondera. Nota outro pequeno menino, ao seu lado, que tenta por tantas vezes conversar com pai, que dele teve de ser separado para sentar na outra ala. Janela, lá está ela, poltrona do meio, menino, corredor, mãe, corredor oposto, pai. Separei uma família, como pude.

Nesse ínterim, retoma a criança de trás:
Ppppppppp. Tctctctctctc. Mãe, mãe, manhê... Pppppppppp. Tctctctctctc. Não, esse não, mãe, manhêeeee... PppPPPPPPPPPPPPPP!!!!! TctctctcTCTCTCTCTCT!!! MANHÊeee

Ensaios são denesnessários. Lança-se no palco e improvisa seu mais belo ato:

"Vocês não querem sentar juntos?" Sorri atenciosamente para a mãe, que tem o filho ao seu lado, mas separada está de seu marido, por todo um corredor. "Ai, a gente 'tava com vergonha de pedir," responde a esposa, tão mãe e tão comedida. "Imagine! Eu até prefiro o corredor."

Satisfeita, senta-se na outra ala, depois de deixar de lado seu precioso assento da janela para unir uma família. Sua nova poltrona a abraça.

23.8.15

Notas sobre o controle de fronteiras

É madrugada. Tudo o que dormi foram vinte minutos antes de ir ao aeroporto de Córdoba. Procedimentos de praxe feitos: mala despachada, passagens em mão, é a vez da segurança do aeroporto. Um dos agentes do aeroporto pede para ver meu passaporte, digo que foi junto com a pasta do computador, que está passando pelo raio-x. Ele pede para que eu converse com o policial federal depois do raio-x. Esse me pergunta, "o que você faz?" "Sou professora." "De quê?" "De literatura." E refaz as mesmas perguntas. O que me pareceu num primeiro momento mera charla era, na verdade, uma investigação. Confusa, me irritei, estava morta de sono e cansaço. Ele continua a perguntar o que vim fazer em Córdoba, por quanto tempo e por quê, o motivo da ida para Florianópolis. Finalmente pergunto o porquê de todas aquelas perguntas. Só então ele me diz que faz parte de um procedimento padrão, a escolha é aleatória e eu fui a escolhida. Me diz então que precisarei acompanhá-lo para que minha mala, que já fora direcionada à aeronave, seja sondada.

Leva-me até um corredor vazio. Fico tensa. Pensamentos paranóides me vêem à mente talvez por influência da exposição que vi ontem de Carlos Alonso com sua sequência de desenhos de estupro e rapto de mulheres durante a última ditadura na Argentina. Tomamos um elevador e ele explica que o procedimento é aleatório e o fato de eu ter parecido nervosa dá-lhes indícios de que devem desconfiar de mim e de que escondo algo ilícito. Penso, não é nervosismo, é puro cansaço e mau humor, vontade de estar na minha cama. Lá embaixo, ele me pede para esperar numa fila onde mais três mulheres jovens passam por uma revista de malas. Abrem as malas de todas elas, tiram tudo de dentro, pedem para que as rearrumem. Listo. Meu embarque já havia começado, eles chamam uma mulher para revistar a minha mala. Ela tenta ser simpática demais. Pergunta novamente num tom como se estivesse de fato querendo me conhecer, curiosa. Me irrita. Ela não quer ser amiguinha, isso é um interrogatório. "Você está viajando sozinha? O que faz? Ah, é professora, é verdade. O que veio fazer em Córdoba? O que faz em Florianópolis?" Me sinto uma louca respondendo às mesmas perguntas pela terceira, quarta vez? "É casada, solteira ou divorciada?" Sou divorciada. Suspendem-se as perguntas. "Mas você é muito jovem para ser divorciada. Que idade tem?" 31. "Ah, parece ter menos." Esboço um sorriso amarelo. Prossegue, "mas ainda assim é muito jovem para ser divorciada." E me pergunta se gosto de mate e me fala do seu namorado italiano. No meio da conversa, com um certo cinismo e enquanto remexe minha mala, diz que está sentindo um cheiro forte no ar e gesticula. Tenho vontade de responder que devem ser as minhas calcinhas sujas. "Ah, deve ser algo daqui deste lugar," responde ao seu próprio questionamento. O único agente que se comporta de modo estritamente profissional é aquele que simplesmente me cumprimenta, contextualiza a sequência de eventos e vai direto ao ponto: me explica que é um procedimento padrão e que devo assinar um documento de praxe, etc, etc. Esse foi o terceiro. Assinado o documento, finalmente posso embarcar.

1h20min dormidos no total esta noite. Minha mala, que por sinal é emprestada, teve os dois puxadores do zíper arrebentados e meu cadeado, é claro, desapareceu. Abro-a, verifico que nada foi retirado da mala. Pergunto ao funcionário da Gol se a empresa aérea poderia me oferecer alguma espécie de compensação ao dano causado. Em princípio não porque o zíper funciona. Ah, claro.

Quero colo. Mas de todos os eventos, o que mais me incomodou foi o julgamento sobre ser divorciada. Mais uma vez, dou-me conta da minha bolha de assuntos e escolhas livres. Dou-me conta do mundo lá fora que parece não ter saído da década de 70. Quanto incômodo ainda parece causar uma mulher jovem e sozinha. Quanto estranhamento vivenciado ao deparar-se com pessoas que escolhem a própria sorte. Tento imaginar como é ser transgênero em meio a interrogatórios oficiais e necessariamente heteronormativos, seguidores fiéis do patriarcado tão firmemente alicerçado nos valores de nossos e nossas compatriotas latino-americanxs.




Notas sobre a Córdoba latino-americana, parte II

Sábado frio e ensolarado. Destinos planejados, rotas a serem desenhadas.

Parto rumo ao Mercado Norte o Mercado de la Ciudad. No caminho, passo pelo Palacio de la Justicia, um edifício imponente, projetado por José Hortal e Salvador Godoy em estilo neo-clássico. Inaugurado em 1936, possui à sua frente uma espaçosa praça, o Paseo Sobremonte, que permite que transeuntes contemplem a fachada do palácio. A praça, por sua vez, um exemplar do século XVIII, é decorada com quatro estátuas principais que correspondem às estações do ano. "Un paraíso para las cuatro patas", diz um sítio sobre o Paseo Sobremonte. E com pertinência. Cachorros divertem-se entrando e saindo da fonte, buscando bolas e gravetos e, eventualmente, metendo-se em brigas e brincadeiras.

Palacio de la Justicia. Foto por A.F.

Prossigo rumo norte em direção ao rio Suquía, que percorre a cidade de leste a oeste. Cerca de dois quilômetros e meio depois, chego ao Mercado. As ruas vizinhas são cheias de ambulantes, feirinhas onde se vendem dos mais diversos artefatos, mas especialmente quinquilharias chinesas. Todo aquele movimento me lembra a confusão da Medina em Marrakesh, mas em menores, bem menores proporções. Quase que involuntariamente, vasculho um pouco mais a memória. Penso na minha mãe. Hoje cedo, antes de sair, senti-me profundamente nostálgica e lembrei-me muito do meu pai como um grande companheiro de viagem. Logo em seguida, pensei no quanto não pensara na minha mãe nos últimos dias. Mas aqui me veio certeira e pulsante. Lembrei-me das histórias que contava sobre o Mercado Norte em Taguatinga, quando Brasília e suas cidades satélites eram quase que só aquela terra vermelha e poeira. E havia o tal do Mercado onde minha mãe, com os míseros centavos de cruzeiro, comprava as suas pequenas bonecas que na época chamavam-se "fofoletes". As bonecas, a fatia de melancia vendida pela japonesa e o picolé de abacaxi eram presentes que a pequena Elza se dava do que sobrava de troco das bananas e laranjas que comprava para a minha avó. Pensei longamente nela, crescendo num período no qual a palavra do dia era escassez. Tudo e qualquer coisa que se tinha era valioso como ouro. Pensei se ela se lembraria do seu Mercado Norte e o relacionaria com este Mercado Norte se estivesse aqui comigo. Este, repleto de carnicerias y cereales com ares de um lugar que não parece ter mudado muito com o passar das décadas; o dela, que não mais existe tal e qual, mas que certamente sobrevive algures.

Prossigo. Continuo rumo norte, em direção ao rio. Percebo que a vizinhança muda bastante de aspecto, pareço adentrar uma região não só geográfica quanto sócio-economicamente periférica da cidade. Observam-me, desta vez, não com aqueles olhares penetrantes, mas com olhares de curiosidade. Sinto-me estrangeira. E é essa é a marca do estrangeirismo que sinto também em terras natais, quando visito minha avó na Ceilândia. Ao meu ver, é esta a mais inexorável marca da diferença e do culturalmente outro: a classe social. Alguns quarterões acima e alcanço o rio. Diferentemente de La Cañada, as margens do Suquía são malcuidadas. Paralelamente ao rio, passam duas avenidas bem movimentadas sem semáforos e de alta velocidade. Não parece ser um lugar a ser visitado. Atravessando a ponte em minha direção, vejo um homem vestido em trapos sujos arrastando um carrinho de compras. Transporta itens coletados aqui e ali -- para vender? Para levar para casa? E aqui está a boa e velha marca latino-americana, a dos contrastes bem marcados, da diferença que se percebe bem marcada ao aproximar-se das margens do rio. E como essas marcas existem na geografia das cidades. Em Belfast, separam-se católicos e protestantes ora pelos trilhos do trem, ora por um muro. Em Florianópolis, separam-se os pobres da classe média e dos ricos por acidentes geográficos, os pobres sobem aclives. Em Caracas, os ricos estão no alto de prédios feitos com vidros reluzentes com vista para o mar do Caribe, enquanto os pobres estão logo abaixo, numa praia que mais se parece com a Ilha das Flores de Jorge Furtado. E aqui, mais um acidente geográfico contundentemente marca a diferença entre o norte e o sul.

Subo a San Martin em direção à Plaza de mesmo nome, onde está a Catedral de Córdoba, uma das suas maravillas artificiales. A catedral teve o início de sua construção no século XVI, mas foi concluída com sua fachada também neo-clássica em 1706. Em meu caminho de volta ao apartamento para almoçar, passo num mercadinho para ver se há algum vinho interessante para levar para casa. O dono do estabelecimento é cortês, me diz que há vinhos melhores do que eu o que procuro na mesma faixa de preço. Digo-lhe que estou de partida de volta para o Brasil hoje mesmo e que preciso de uma boa amostra argentina para levar de volta para casa. Ele se recusa a crer que já me vou, me pergunta quanto tempo fiquei e se voltarei à Córdoba porque gostaria muito de me convidar para tomar uma taça de vinho. Acabo levando duas garrafas por um valor menor que eu estava determinada a pagar. Tenho a impressão de que ganhei um desconto de 25 pesos numa das garrafas. Pergunta-me se pretendo tomar o vinho que estou comprando hoje ou no Brasil. No Brasil, respondo. Mas quanta lisonja!...

À tarde, prossigo minha incursão por esta cidade que se revela um verdadeiro passeio pela história da arquitetura e das memórias políticas dos argentinos. Vou ao Paseo del Buen Pastor, um centro cultural onde há exposições, concertos gratuitos e peças teatrais, que até o final da década de 70 funcionou como uma penitenciária para mulheres. As últimas mulheres lá aprisionadas foram prisioneiras políticas e muitas delas desapareceram durante uma das várias ditaduras militares da argentina. O espaço, repleto de fontes e jovens casais, foi completamente reciclado e erguido em homenagem a essas mulheres em 2001.



Esse dia, que me pareceu tantos e me rendeu tantas sensações num só, me trouxe ainda o Parque Sarmineto, onde me senti um tanto quanto melancólica com tantas crianças e cachorrinhos correndo para cima e para baixo e, por fim, o Museo de Bellas Artes Palacio Ferreyra. Lá, tomei minha merienda Argentina, com direito a dos medialunas, sumo de naranja, marmelada, mantequilla y cafe con leche. Ah, o prazer que vem junto com o café do fim da tarde, especialmente quando tomado ao sol e com vista para um jardim tão cuidadosamente projetado.

Parque Pres Sarmiento - Foto por A.F. 

Terminada a visita aos quatro andares do museu, senti que era chegada a hora da despedida. Córdoba de muitas boas surpresas e histórias, sinto-me encantada, profundamente enamorada. 



18.8.15

Notas sobre a Córdoba latino-americana, parte I

Chegada em Córdoba em 17 de agosto, segunda-feira, feriado nacional, dia de San Martin, um dos libertadores da Argentina do crivo espanhol. Um dos grandes heróis nacionais também do Chile e do Peru, juntamente com Simón Bolívar. Ufanismos à parte, tudo estava fechado, inclusive as casas de câmbio e meu cartão foi rejeitado por todos os caixas automáticos do aeroporto. Uma alma boa que conheci em Guarulhos e coincidentemente sentou-se ao meu lado no avião emprestou-me dinheiro e garantiu meu bem-estar em terras argentinas por pelo menos 24 horas.


Passado o feriado, parti em busca de caixas eletrônicos no centro da cidade. Deparo-me com diversos cajeros sin plata. Caminhando em direção à Plaza San Martin, encontro muitos bancos, todos com filas que alongam-se do lado de fora dos prédios. Tenho 153 reais no bolso. Encontro uma casa de câmbio, troco tudo o que tenho e pergunto ao funcionário o que se passa na cidade. A explicação: com a perspectiva do feriado prolongado, boa parte da população decidiu sacar dinheiro e, portanto, os caixas ficaram desprovidos. Hoje, primeiro dia útil depois do feriado, todos correram para sacar, o que resultou novamente em cajeros sin efectivo, filas longas e uma conversa corriqueira com os cordobenses depois de tentativas frustradas de saque: ¿no hay plata?

Plaza San Martin. Foto por A.F.


Volto para almoçar no meu departamento na General Artigas. Um copo de vinho aplacará o meu breve desespero de pensar que não terei dinheiro suficiente durante a viagem. Refaço minhas contas, entro em contato com a gerente do banco, tranquilizo-me e saio novamente, mas agora para aproveitar o sol e contemplar com placidez o ritmo da vida nesta cidade. Volto à livraria onde meu cartão foi rejeitado: adquiro meu primeiro exemplar de teatro contemporâneo argentino. La Nona de Roberto Cossa, dramaturgo que escreveu suas peças principais na crítica e violenta década de 70. É preciso notar que as caminhadas pelas ruas são sempre marcadas pela troca penetrante de olhares. Olha-se nos olhos.


Sento-me num café que fica perto da exuberante Catedral de Córdoba, cuja construção data de fins do século XVI. Mesinhas ao lado de fora, sol. Contemplo as pessoas que estão na praça à minha frente jogando xadrez, namorando, fazendo nada, consultando seus smartphones, lendo, ouvindo música... Ali estão elas. Na rua, a cidade está cheia de vida.


Um dia cheio de contrastes, de sentir-se na Argentina dos anos setenta, do incômodo aos breves encontros com estranhos, à placidez. Ao prazer de sentir-me estrangeira e pertencente ao mesmo tempo.




20.10.14

Anti-gravitacional


Estava num cômodo familiar, mas não sabia exatamente onde. Se era a minha casa ou não, parecia tanto fazer, só sei que a sensação era de familiaridade. O estranho é que estava suspensa, era como se pairasse. Apesar de flutuar, não me sentia leve. Uma força me fazia permanecer quase que rente ao teto, olhava para baixo, mas não conseguia falar. Na verdade, eu nem tentava falar. A comunicação acontecia, ao menos na minha percepção, pelo olhar. 

Pessoas conhecidas e próximas me olhavam lá de baixo. Nada faziam para me tirar daquele estado gravitacional invertido, mas eu não ressentia isso. Havia uma certa cumplicidade no olhar daquelas pessoas, que tampouco sei quem eram. O que sentia por elas parecia-se com o modo como o cômodo me fazia sentir: eu estava segura, confiava no lugar e nas pessoas, mas a força que me impedia de mover me dava insegurança.

O único movimento que parecia haver ali naquele momento quase claustrofóbico era o dos olhares. O das pessoas na minha direção e o meu no delas. Pelos seus olhos, via-me rente ao teto, sem conseguir me mover. Elas olhavam para mim e eu via a minha ansiedade nos olhos delas. Pelos meus olhos, percebia que estava no lugar errado, que minha posição estava errada. A sensação da posição "errada" ou de "fora do lugar" vinha do fato de que todos estavam em pé sobre o que normalmente é tido pelo chão e eu deitada, estirada no ar. Por nada conseguiria descer. Queria mexer os braços e as pernas, como se estivesse numa piscina para me impulsionar para baixo, mas de nada adiantava. Sentia como se de fato me mexesse, mas os movimentos eram tão pequenos que não conseguia sair do lugar.

O cômodo tinha um piso de taco. Tudo era marrom. Ton sur ton marrom. A cena tinha um ar de anos passados, anos que eu não vivi. Aqueles anos que imaginamos e que só podem ser vistos com um filtro de pôr-do-sol. Tinha a sensação de estar num lugar velho, num lugar que já foi.

desenho por R.Alves
Acordo. Sei que é madrugada. Me alivia estar acordada e fora daquele quarto onde não consigo me mover. No entanto, enquanto tento pegar no sono de novo, volto sempre para a mesma posição anti-gravitacional.

Pensando nesse episódio agora, ele deve ter durado só alguns segundos, mas, enquanto sonhava, parecia uma permanência.

18.2.14

Paquetá - RJ, 10.02.2014

Foi ao Rio passear. Mas não para fazer um passeio qualquer. Foi para passear em si mesma, para tentar compreender a finalidade de tudo isso, dos sonhos já realizados tão cedo numa vida que se fazia sentir tão idosa.

Reencontrou a amiga com quem há anos não passava o tempo fazendo o que gostavam de fazer: bebericar, ponderar as coisas da vida e sentar-se em silêncio, em reverência ao momento presente. Depois de um fim de semana de reencontro tão espontaneamente divertido e profundo, acordou melancólica, com o blues de não poder passar o dia acompanhada. Nove. Nove e meia. Dez horas e finalmente cria coragem, levanta-se da cama naquela segunda-feira preguiçosa. Resolve ir à Ilha de Paquetá ao invés de visitar a moderna Catedral Metropolitana de São Sebastião, avistada do alto de Santa Teresa.

Chegando à Estação das Barcas, tem a gostosa sensação de estar prestes a viajar. A idéia de fazer um passeio pelo Rio literário do século XIX a seduzira. Fantasias adolescentes de um Brasil na era do Romantismo pareciam-lhe um convite tentador. Seria como revisitar um passado que com insistência existiu em sua imaginação no tenro período dos seus doze aos dezessete anos...

No catamarã, em meio a disputas pelos assentos próximos às janelas, conquista o local ideal para apreciar confortavelmente a bela paisagem da costa do Rio de Janeiro e suas ilhotas vizinhas. Quem sabe também meditar um pouco, afinal, é urgente que seja iluminada. A crise dos quase-trinta vem-na consumindo há semanas. De repente, à sua frente, iniciam-se gritinhos de duas crianças. Inadvertidos do sentimento da velha-moça sentada atrás deles, parecem andar no catamarã pela primeira vez na vida:

- Olha, ele vai fazer a curva, deve ser difícil, né?
- Nossa, mas foi tão rápido!

"Crianças barulhentas", pensa, do alto da senilidade dos seus quase trinta anos.

- A gente tá indo pra ponte, olha mãe!

"E assim será até o fim da viagem", bufa em seus pensamentos.

- Olha o pato! Ele vai voar? Pra'onde ele tá indo?
- Olha os outro navio grandão!
- Mas pra onde o pato foi?

E inicia-se a especulação sobre o novo paradeiro do pato. Em meio à elucubração sobre aquele ser mágico e aventureiro, a senil jovem começa a chorar. Via-se num dos meninos que tinha olhos cor-de-jabuticaba cheios de curiosidade e cabelos lisos, finos e escuros, que lhe caiam sobre os olhos, como os dela. Os menininhos a fizeram enamorar-se de sua temporária solidão ao remeteram-na à sua infância. Pensava nos pais que a ensinaram a cultivar o apreço pelo estar em trânsito, pela estrada que tantas vezes fez seus pensamentos perderem-se, pelas nuvens e pelas águas que sempre lhe inspiraram novas estórias. "Papai, sabia que nesse mar desapareceu uma mulher que virou uma sereia e que dá pra ouvir ela falar nessa concha?", noticiou uma vez ao pai, numa praia perdida em Parnaíba.

[É feliz afinal, pondera. Ou pelo menos assim se sentiu durante aquela breve catarse. E ama estar só, apesar da resistência inicial. A combinação de estar só e em trânsito dão-lhe o combustível necessário para reconhecer o quanto a vida que tem é, de fato, a vida que sempre quis ter. Apesar do presente ranço e dos atuais dilemas existenciais que lhe parecem tão perenes, reconhece que fez tudo como gostaria de fazer. O reencontro com amigos antigos lhe fizeram tão bem.]

E desmanchava-se em lágrimas no meio daquela epifania. Naquela comunhão da existência humana. Os menininhos eram ela e ela, os menininhos.



5.2.14

Como um espelho...

Lendo O Último Voo do Flamingo, deparo-me com a fala do feiticeiro, que de tão certeira e acertada, arrepia-me

"Falam do colonialismo. Mas isso foi coisa que eu duvido que houvesse. O que fizeram esses branco foi ocuparem-nos. Não foi só a terra: ocuparam-nos a nós, acamparam no meio das nossas cabeças. Somos madeira que apanhou chuva. Agora nem acendemos nem damos sombra. Temos que secar à luz de um sol que ainda não há. Esse sol só pode nascer dentro de nós." (p. 155)

Encantada com a poesia e a pungência de Mia Couto, penso que esse livro tão moçambicano ergue-se como um imenso e assombroso espelho a quem o lê. 

Retirei a citação da edição publicada no Brasil pela Companhia das Letras em 2000.

31.7.13

Brasília

Brasília, cidade espaçosa. Cidade de espaços amplos e intocáveis. Cidade onde os espaços públicos não são ocupados pela classe média nem pela alta, que tem medo da classe baixa, ou como diria uma amiga, tem "pobre-fobia". Cidade do privado, de mansões com piscinas e imensos gramados.

22.1.13

A wee rant

"Just cause you feel it, it doesn't mean it's there," sings Thom Yorke. Moving to a new home is always tricky; but moving to a different country, especially your home country (ironically enough) -- and I feel like ending this sentence with a sigh, that's all. One, at least I, feels unfit for the new/old environment. I guess it's to do with the conflict that is inherent in the idea one makes of the old that is the hardest part. It's old, but it's new at the same time. The country's changed, you've changed, and your ideas about that country have also changed somehow, and the ideas that your relatives and friends who stayed in that country have about you are probably quite conflicting as well.

The quotation above is there because it helps me to put into words the demon-thought of not belonging, of thinking that just because one thing went wrong (or a few small things), everything around me is about to collapse in this new-old-home-foreign country that I used to call home when I was younger (much younger!). But since I moved away from this country for the first time, it's never felt like home again. At least, not the type of "home" I used to think of then. So, back to Thom Yorke. I guess it's about fighting against a stream of thoughts that are supposedly there to protect you from, god-knows-what, the new, the unknown, but which do not help one in the least to move forward. I've lived experiences abroad for the past 4 years which just seem not to translate here. Hence the paradox of it all, being your writer both a translation practitioner and wanna-be theoretician. This is the current state of unreality I'm in, trying to figure out where I fit in in this bloody place. Fighting my demon-thoughts. But is everything at a loss for a pilgrim of the world? (I just refuse to use the cliché expression "globetrotter", I prefer something more... spiritual, if I may say. Because it's not about the superficiality of sightseeing everywhere, but about a range of life-changing experiences as well as about the development and appropriation of new rituals.)

There it goes. This is so not my blogging style. I've ended up writing in the voice of "I". Oh well. Perhaps that was just what I needed. So there we go, a very selfish and egocentric post for once.

21.6.12

A árvore e o homem

A árvore caída e o homem, que reflete sobre a queda da árvore.

Numa típica tarde chuvosa em Belfast, depois de uma longa caminhada, o homem depara-se com uma imensa árvore tombada ao chão. Morrera de velha? De tristeza? Seu comprido tronco cinza parecia o longo pescoço de um animal jurássico; sua pose, a de uma dama estirada no chão a espera de uma mão gentil. O apodrecimento, o fim e a inevitável semelhança das coisas mais dissemelhantes.

18.6.12

Puddles, a wee boy, and the Titanic Museum

A wee boy plays in the puddles in front of the Titanic Museum. No matter how opulent that building is, the wee boy seems much more entertained by the outcomes of the rain that's pissed down for a week... What's with children and puddles anyway? Down with buying expensive toys, just give 'em a pair of wellingtons, and they're sorted.

13.6.12

Fair Head

Fair Head, 10 June 2012.

Don't fool yourself. As picturesque and peaceful as it looks, those guys are perched on top of a 180m high cliff. The tip of land on the horizon is Scotland, most probably Southend.

11.6.12

The Bishop's Library


The Bishop's Library in Castlerock, Northern Ireland. Picture taken in May, 2012.

What an exquisite location for a private library.

27.3.12

A partida

E voltou para a sua amada e saudosa terra depois de dois meses de muitas reflexões durante o fim do inverno irlandês. Foi e deixou para trás uma filha que mal podia caminhar pela cidade de Belfast sem derramar uma lágrima porque a via, naquele lindo dia ensolarado, nas ruas, nos parques, nas pessoas que observava em sua caminhada. Ficar só era tão incômodo e tão revelador. Era quando as lembranças vinham pungentes e decisivas.

Ao chegar casa, a ausência fez-se enorme e pesadamente presente. A risada não estava mais lá, a preguicinha tão almejada depois da labuta acumulada, o beijo e o abraço de reencontro e como-foi-o-seu-dia, o desabafo, o cozinhar juntas ou, quem sabe, ir ao mercado porque faltou alguma coisa para completar a janta.

E escrever, mesmo que só um pouco, alivia-me o peito. Faz-me pensar que, ao contrário do ditado que diz que é a ausência que torna o coração mais afeiçoado, são a presença e a experiência compartilhada que tornam o adeus tão torturante.

Apego-desapego, apego-desapego. Esse é o nome do jogo.

30.11.11

Impressões de perto do final, porém não conclusivas.

Inquietude. O desejo de se sentir em casa. Do pertencimento.

Depois da descoberta de que tinha que deixar o País dos Intocáveis o mais breve possível, começou o movimento de desfazer o pequeno apartamento de pouco menos de trinta metros quadrados. Aquele pequeno apartamento que mal havia começado a dar aconchego... Que há pouco começava a ser chamado de casa. Mas não havia mais tempo para isso. Era hora de refazer as malas, desmontar os móveis e montar as caixas. Era chegada a hora de deixar aquele país simpático, mas que nunca lhe pareceu interessado, que lhe tinha sempre um quê de inércia quando se tratava de conhecê-lo mais profundamente.

É, é assim que ela vai sair daqui. Sem saudades, só com lembranças de um tempo quando a vida foi um sonho estranho. Quando a neblina do fim do outono, que às vezes perdurava por dias a fio, parecia mais acolhedora do que os dias ensolarados. A neblina acobertava os espaços vazios e o longo tempo que ainda estava por correr até a tão almejada partida. Os minutos e as respirações se comprimiam naqueles brancos dias de nuvens.

E assim parte. Do lugar onde um sorriso é um meio sorriso. Onde a casa é quase um lar. Onde o sol quase esquenta. Onde o inverno é quase frio. Onde no cardápio mal traduzido em inglês, serve-se ‘frango morno’ [‘lukewarm chicken,’ how sad is that?]. (Ato falho?) Onde as meninas e os meninos são quase muito bonitos. Onde a mais pungente das manifestações climáticas é a cortina de neblina, quando o céu vem à terra e os sonhos e as realidades habitam a mesma dimensão. Onde se é quase feliz, mas falta...

Mais triste do que partir é partir sem saudades. É partir para esquecer.

30.8.11

Observações preliminares, Tilburg, Holanda, texto 1

Há duas semanas em terras holandesas, gostaria de fazer algumas breves observações sobre os altos habitantes das terras baixas. Observações estas que são também compartilhadas por meu companheiro de viagem, diga-se de passagem. (E talvez o meu objetivo implícito, que aqui explicito, seja eximir-me de quaisquer aparentes implicâncias, nojos ou preconceitos.)

Os holandeses são bastante simpáticos em geral, apesar de não serem educados e agradáveis como os irlandeses e os ingleses. Não têm o costume de pedir licença e muito se apressam para passar na frente da fila. A simpatia holandesa, já que fiz a comparação, diferentemente da irlandesa ou inglesa, parece-se com uma máscara de ferro. Explico o porquê disso. Parece-me que muito se orgulham do fato de usarem o inglês para se comunicar com as pessoas de fora, apesar de muitos o usarem de um modo limitado ao instrumental ou como o assustador 'Globish'. Acontece que o fato de usarem o inglês e de fazerem questão de defender que o holandês é uma língua inacessível e inútil torna-os intangíveis. A aparente falta de interesse em ensinar a língua e a cultura deles para os de fora podem traduzir-se numa alta, bem alta, torre de marfim. Não é à toa o termo cunhado por eles mesmos 'the undutchables' -- os intocáveis holandeses?

7.4.11

É puramente orgânico

Cabelos compridos, muito compridos. Passavam das nádegas. Estavam soltos na maior parte do tempo, especialmente quando ia à cozinha, fosse para cozinhar ou para recolher o seu arroz da panela de pressão enquanto outros cozinhavam. Ao vê-la em casa, era sempre a mesma rotina: primeiro sentia repulsa e raiva, que se amainavam e logo se transformavam em dó -- uma comiseração revestida de nojo.

Passara a noite cozinhando enquanto eu tentava dormir. "A noite", mas que exagero o meu. Cozinhara da meia-noite às duas da manhã somente. Enquanto cozinhava, ligou o aquecedor para se assegurar de ter um belo e quente banho de banheira depois de terminar de preparar a comida para semana. Comida essa que seria armazenada dentro de um armário -- ao contrário de na geladeira porque "se colocar na geladeira, perde o gosto". Mas é claro que ela não falou isso! Ela mal consegue falar. Apontou para geladeira e disse, "gosto ruim". Ah sim, claro. As horas passavam e, pelo fato de ter sido acordada logo após de cair no sono, Morfeu se foi sem olhar para trás. A minha pequena depressão matutina do dia seguinte foi substituída por asco. Lavo o rosto, escovo os dentes, visto-me e preparo-me para o meu café da manhã, a refeição do dia mais esperada! Abro a porta da cozinha para preparar o meu café vital de todas as manhãs e não consigo. Os armários estão cobertos por uma gosma amarela e gordurenta, há cabelos longos, muitíssimos e longos por toda a parte, parecem lombrigas que disputam pela próxima migalha. Caminho em direção à geladeira porque decido então tomar iogurte e o meu caminho é guiado pelas compridas lombrigas.

Volto à cafeteira -- preciso de cafeína, oras! -- e lá está: um pote de plástico dentro da lixeira de orgânicos -- por que a terra digere plástico, é claro, assim como o estômago da moça de cabelos compridos! Será que é assim que devo ensiná-la então? Havia colado papéis na parede com setas indicando que-lixo-vai-em-qual-lixeira, tudo escrito em letras garrafais. Da próxima vez, peço-a para comer não só o iogurte como também o seu respectivo pote.

Desculpe-me. Perdi a compostura.

5.12.10

Das paisagens da memória

É incômoda a imposição que se recebe ao escutar a pergunta: 'de onde você é?'. Responder a essa pergunta com sinceridade implica agrupar-me numa determinada categoria mental onde todas as pessoas desse lugar ou dessa região habitam? A que cultura eu pertenço? Ou de quantas culturas eu faço parte?

Escutava 'Scarborough Fair' de Simon e Garfunkel enquanto caminhava em direção à universidade nesta manhã de domingo ensolarada com nuances brancas espalhadas pelo chão e pelos telhados quando me sobreveio uma entorpecente sensação de casa. A música remeteu-me à minha infância, às noites frias e aconchegantes dos meus sete anos de idade quando meu pai e eu íamos às Vivendas, à casa que ele levou tantos anos para construir. 'Scarborough Fair' é tão minha quanto de Simon ou de Garfunkel, é tão minha quanto de americanos ou, quem sabe, até mais minha do que de todos eles juntos. O frio da minha paisagem atual provavelmente não era o mesmo do cenário da infância, mas, naquela época, para mim, a sensação de frio era igual. A música do meu pai, que por tantos anos tocador de LPs dele (era mais moderno do que uma vitrola!), toca agora no meu mini-tocador portátil. Apropriei-me da música dele e ele, por sua vez, apropriou-se da música de outrem. Essa música é a minha história. E onde estou agora, desse lugar faço a minha casa, onde reúno as fotos do passado com os seus cheiros, suas músicas e os seus sentimentos, juntamente com os momentos presentes e as vontades do futuro.